A Caminhada de 123 Anos que desembocou em Horebe
O sábado, 15 de novembro, amanheceu com aquele cheiro de feriado que o Brasil conhece de cor: um misto de calma na rua e festa no coração, com alguns se lembrando do que se tratava a data enquanto outros só querem curtir o dia. E no final da tarde, inicio da noite, na IP de Monte Horebe da Figueira, em Duque de Caxias (RJ), o dia parecia ter recebido um sopro da serra dos Órgãos — desses que levantam poeira boa e anunciam coisa grande. Era o culto pelos 123 anos do início do trabalho masculino na IPB, mas também era outra coisa: parecia reencontro de gente que carrega no peito um mesmo tremor de fé.
O templo, pastoreado pelo reverendo Márcio Ciríaco, vibrava de alegria. Chegavam irmãos como quem retorna para casa de amigos e mesa posta. Chegavam lideranças - representando federações, sinodais, Nacional, presbitérios, sínodos - com seus nomes compridos, desses que Graciliano (Ramos) anotaria num bloco, só pra depois aparar até ficarem enxutos. Presbíteros: Luiz Augusto Gonzaga, Samuel Ribeiro, Paulo Roberto Daflon (este também comendador), Sérgio Silva, Jonas Almeida, Eli Araújo, Helison Chrispe, Corrente Garcia; diáconos: Eraldo Rosa Júnior, João Fabiano Veloso, Jorge Carlos Alvieira; pastores: Robson Sathler, Márcio Bernardes e Eurípedes da Conceição; além da irmãs Edvânia e, Ednéia Pimentel e Nilcea Daflon, todos como personagens de Jorge Amado: fortes, presentes, cheias de cor. Cada um achando seu canto no banco e sua linha nessa grande história.
O louvor correu solto com a equipe da casa e a participação do irmão Marcelo Cupertino. Era um canto de quem sabe da vida dura, mas insiste em celebrar, adorar, bendizer ao Criador e Senhor Deus. E ali, entre tantos homens, mulheres, jovens e crianças, pastores; representantes de federações e sinodais presentes, formou-se um retrato bonito: uma multidão diversa, mas com a mesma rota — CEU, Confiança, Entusiasmo e União. Coisa que qualquer sertanejo-mineiro como Guimarães Rosa reconheceria como sina boa.
A mensagem, proclamada pelo reverendo Cid Caldas — que nos anos 80, ainda jovem, rasgou o Brasil de Norte a Sul fazendo parte da trupe do Milad — encontrou eco perfeito ali, na Igreja Monte Horebe da Figueira, cujo nome evoca o próprio Monte Horebe bíblico, também chamado de Monte Sinai, onde os Dez Mandamentos foram entregues a Moisés. Talvez por isso suas palavras soassem ainda mais apropriadas: vinham com a precisão de quem conhece o pantanal, os pampas, o sertão, o cerrado e a floresta da alma humana.
Atualmente, ocupando a posição de pastor da IP de Botafogo e presidente do Instituto Presbiteriano Mackenzie, ele usa palavras que não se apressam, como faria Fernando Sabino, mas que chegam no ponto certo, feito carta — e ele, como a maioria ali presente, é desse tempo — que encontra o destinatário. O templo escutava, respirava junto, se ajeitava inteiro em atenção. Havia reverência, mas havia também aquele entusiasmo doméstico, quase moleque, que mora na fé quando ela se alegra.
Ao final, ficou no ar aquela certeza silenciosa, quase narrada em voz baixa: Deus vem costurando essa história com linha firme. Os 123 anos do trabalho masculino não são só números — são caminhos percorridos por homens comuns que, entre tropeços, labutas e alegrias, seguem acreditando que servir é coisa séria, mas também cheia de esperança. E quem saiu da Monte Horebe levou no bolso, sem perceber, um fiapo de paz. Coisa simples, mas valiosa — igual às melhores histórias que a vida inventa.