Entre a Palavra e os ventos de novembro em Feira
Naquela manhã de domingo, 23 de novembro, a bucólica Feira de Santana parecia ter acordado com a solenidade de um verso de Castro Alves: o céu azulava alto, como quem abre cortinas para um palco de grande causa. A Igreja Presbiteriana Moriá recebia seus habituais frequentadores com a gravidade dos dias importantes — aqueles em que a alma se apruma e sabe, sem ninguém dizer, que algo será dito para ficar.
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O notório presidente da CNHP, Luiz Augusto Gonzaga, entrou como quem carrega uma missão no bolso do seu bem cortado paletó. Presbítero de longa data, já tendo ocupado importantes cargos em seu presbitério e também no Sínodo, vinha de outras estradas e compromissos o dia anterior na região da Chapada Diamantina e chegou à Moriá com a serenidade firme dos homens convocados a falar verdades que não cabem em sussurros. O pastor Ozenildo, anfitrião cordial e atento, o recebeu como se recebe um irmão que retorna: com alegria e com aquela pontinha de expectativa que Feira guarda nos encontros grandes.
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A leitura foi de Filipenses 1:18-26, mas o que se seguiu ultrapassou o texto: era como se Paulo, de algum canto do tempo, soprasse nas páginas a chama que o pregador reacendia. E Luiz Augusto falou aos homens — principalmente a eles — com a precisão de um Ruy Barbosa (a célebre e notária "Águia de Haia) afiado, denunciando a tibieza que às vezes se infiltra nos compromissos e convocando cada um à coragem de quem sabe por que crê. “O viver é Cristo e o morrer é lucro”, repetiu. E não era frase velha: era espada nova, recém temperada e bastante afiada.
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Os presentes ouviram. Ouviram como quem escuta a própria história sendo recontada — e cobrada. Jorge Amado, se estivesse por ali, talvez dissesse que cada rosto trazia sua própria Ilhéus (ou mesmo a Baia de todos os santos - ali bem mais próximas) de conflitos e brejos de esperança. E no meio dessa gente pescadora de fé, aquela palavra pousou: firme, quente, necessária.
Falou-se de missão, de responsabilidade, de fundamento sólido, desses alicerces que fazem o crente se levantar ereto quando o mundo pergunta por que ele insiste em permanecer de pé. Falou-se de risco e de ousadia, porque Evangelho sem coragem é só vitrine; e coragem, segundo o pregador, nasce dessa certeza que Paulo plantou: estar com Cristo é infinitamente melhor — e é esse “infinitamente” que endireita a espinha e sopra o medo para longe.
O culto ganhou ainda o reforço de comunhão com o presbítero Marcelo, que já presidiu a Sinodal de Homens da Bahia. A presença dele deu ao ambiente aquele ar de reunião antiga, de irmandade forjada não em cargos, mas em serviço.
No final, o pastor Ozenildo ergueu a voz para a oração e, com a bênção apostólica, encerrando o culto como quem fecha um livro bom: deixando no ar a sensação de que a história continua, mesmo depois do ponto final.
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E a Moriá saiu mais forte. Mais consciente. Mais atenta ao chamado que ecoou naquela manhã — um chamado que, se dependesse de Castro Alves, seria grito; se dependesse de Ruy Barbosa, seria argumento; e se dependesse de Jorge Amado, seria encanto popular caminhando pelas ruas de Feira.
Mas ali foi tudo junto: palavra, coragem e o vento quente da fé soprando sobre os homens, como a Bahia (oh meu rei!) gosta de fazer quando resolve ensinar.
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