Quando a bola serve à comunhão: crônica da 2ª Copa das UPHs em Dourados
Há feriados que passam em branco e há feriados que ganham contornos de memória. Em Dourados, no 1º de maio, a cidade acordou com cheiro de café, grama molhada e chuteira amarrada com capricho. Na Chácara Maanaim, pertencente à Igreja Presbiteriana, a 2ª Copa das UPHs ia tomando forma, misturando o calendário da Federação de Homens a algo menos burocrático e mais antigo: o gosto de reunir famílias em torno de um campo, de uma mesa e de uma fé compartilhada. Cerca de 200 pessoas se deixaram conduzir por essa rotina diferente: pastores, jogadores, crianças, adolescentes, esposas, avós – todos compondo, com naturalidade, o quadro de uma comunhão que se traduzia em risadas, cumprimentos e expectativa de bola rolando.
Do lado de dentro da organização, a manhã começou mais cedo. Antes de o primeiro chute ser dado, o irmão Rudi Ferreira, vice-presidente da Federação, e o diácono Eduardo Gomes, 2º secretário, revisavam detalhes de tabela, tempo de jogo, água nos bancos de reservas. Ao redor deles, a diretoria completa se fazia presente: o presbítero Ângelo Augusto Gomes, presidente; o irmão Alisson Abedala, secretário executivo; o presbítero Sidney Gomes, 1º secretário; e o presbítero Eliberto Liebich, tesoureiro. Não estavam sozinhos. Na retaguarda, o pastor Melquisedeque Nascimento, secretário presbiterial do Trabalho Masculino, o diácono Thiago Pereira, da IP Filadélfia, e o irmão Elcio Baralho, da IP de Dourados, movimentavam a cozinha, provando temperos, organizando panelas, preparando, sem alarde, a parte invisível de qualquer confraternização: o alimento que, mais tarde, aproximaria ainda mais os irmãos à volta das mesas.
Antes da competição, a liturgia doméstica do presbiteriano se cumpriu: café farto, conversa em voz baixa, crianças correndo entre bancos e árvores. Houve devocional – a Palavra abrindo o dia – e, depois, a foto oficial. Alinhados, representantes de Dourados, Rio Brilhante, Vila Barros, da Igreja Indígena Missão Caiuá e das congregações Jardim Guanabara e Vista Alegre posaram lado a lado. A Igreja Central de Dourados, multiplicada em três equipes –, dava a impressão de que, se a bola fosse distribuída em forma de escalação, o presbitério inteiro caberia ali. Às 9h30, o primeiro apito cortou o ar, e a paisagem de chácara transformou-se em torneio, sem que a comunhão perdesse lugar para a competitividade.
Os pastores, dessa vez, não ficaram apenas na lateral do campo. Alcino, capelão da Escola Erasmo Braga e colaborador da IP de Dourados; Clóvis, da Igreja de Rio Brilhante; Jacson, da Congregação Glória de Dourados; além de Melquisedeque e Ildemar, todos da IP Dourados, circulavam entre os irmãos, ora em conversa, ora prontos para entrar em campo, confundindo o terno habitual com a camisa numerada. Havia, nesses gestos, um recado silencioso: a liderança que prega a unidade está também disposta a suar a camisa, literalmente, em favor dela.
A fase classificatória tratou de mostrar que, quando o juiz apita, até a mais fraterna das confraternizações pede seriedade. Na primeira rodada, a IP Central 2 confirmou que levaria o torneio a sério, vencendo Vila Barros por 5 a 1. O time Central 1, por sua vez, viu a Congregação Vista Alegre vencer por 1 a 0, em jogo decidido nos detalhes. A Missão Evangélica Caiuá começou o dia com derrota por 1 a 0 para a IP Rio Brilhante, mas ainda teria tempo para reagir. Na segunda rodada, Vista Alegre voltou a demonstrar força com um 4 a 1 sobre Vila Barros, enquanto a Missão Evangélica Caiuá venceu a IP Central 3 por 3 a 2, recolocando-se na disputa. Em um duelo equilibrado, IP Central 2 e IP Central 1 empataram em 0 a 0, jogo de poucas chances e muita marcação. A terceira rodada manteve o clima de equilíbrio: IP Central 2 perdeu para Vista Alegre por 3 a 1; IP Rio Brilhante empatou em 1 a 1 com IP Central 3; e Vila Barros e Central 1 protagonizaram um movimentado 4 a 4, mais próximo de pelada de fim de tarde do que de jogo calculado de campeonato.
Enquanto isso, à margem do gramado, outra partida se desenrolava sem placar oficial. Crianças disputavam pontos invisíveis na piscina e no voleibol; mães e esposas, entre cadeiras e sombras de árvores, conversavam, fotografavam lances e aplaudiam, cada uma ao seu modo, seus jogadores. Em algum momento, alguém chamou para o almoço, e a Copa fez uma pausa natural. O relógio marcava 12h30 quando os irmãos se deslocaram para a área de refeição. Ali, a diretoria e os voluntários da cozinha – anônimos para o placar, fundamentais para a memória – serviam pratos que, sem alarde, reforçavam o sabor de comunidade. O torneio esportivo cedia lugar, por instantes, ao torneio mais antigo da igreja: o de servir ao outro.
A tarde trouxe a fase decisiva. Na semifinal, Vista Alegre, já apontada pelos números como favorita, venceu a Missão Caiuá por 3 a 0, resultado que confirmou o bom momento da equipe. No outro confronto, Rio Brilhante superou a Central 2 por 2 a 0 e garantiu presença na grande final. O gramado da Chácara Maanaim, que horas antes havia recebido passes despretensiosos, converteu-se em palco de uma decisão que, embora amistosa, carregava a emoção própria das finais. Vista Alegre e Rio Brilhante entraram em campo sabendo que, além do troféu, disputavam a pequena vaidade legítima de figurar na história da 2ª Copa das UPHs da PRDO.
O jogo final honrou o roteiro. Em clima de rivalidade saudável, Vista Alegre administrou a pressão e venceu Rio Brilhante por 2 a 1. Quando o apito sinalizou o fim, o torneio tinha seus números definidos: Vista Alegre, campeã; Rio Brilhante, vice; Missão Caiuá, terceira colocada. Mas as estatísticas ainda guardavam espaço para nomes próprios. O irmão Cadu, de Vista Alegre, foi o artilheiro destaque; Luan, também de Vista Alegre, recebeu o reconhecimento de goleiro destaque, colecionando defesas que arrancaram aplausos ao longo do dia. Entre tantos jogadores, o irmão Milton, da Central 1, de 70 anos, foi homenageado como ancião ganhador, lembrando que, no campo da fé, a experiência não se aposenta – continua a inspirar, ainda que o fôlego já não acompanhe a juventude.
Depois do último gol, a cerimônia de premiação transformou o campo em espécie de púlpito ao ar livre. Equipes alinhadas, medalhas penduradas com cuidado, troféus erguidos com a discreta alegria típica dos presbiterianos; abraços entre vencedores e vencidos, fotos registrando sorrisos contidos e mãos ainda marcadas pela bola. A comissão organizadora, formada por Sidney (IP Vila Barros), Thiago e Alisson (IP Filadélfia), Rudi (IP Rio Brilhante), Melquisedeque, Ângelo, Eliberto e Eduardo (IP Dourados), também posou junta, como quem sabe que, antes de qualquer placar, o que se celebra é o esforço coletivo.
Quando o relógio se aproximou das 16h, o pastor Melquisedeque tomou novamente a palavra para o encerramento oficial. Agradeceu aos irmãos, às famílias, aos visitantes que serviram na cozinha, àqueles que atenderam na cantina, aos pastores que não apenas estiveram presentes, mas calçaram chuteiras, simbolizando, no gesto simples, que “todos somos IPB” também na beira do campo. Em nome da Federação de Homens de Dourados, foi elevada a Deus uma súplica serena: que abençoasse cada família ali representada e, se fosse Sua vontade, permitisse que novas Copas viessem, não apenas para definir campeões, mas para seguir tecendo, ano após ano, essa rede de integração, união fraternal e fortalecimento do trabalho masculino presbiteriano na região.