Um domingo na Chapada para lembrar
Há domingos que começam como qualquer outro.
O sol nasce, a cidade desperta, as igrejas se preparam para mais um dia de culto. Mas há domingos que parecem guardar alguma coisa diferente. Talvez seja o lugar. Talvez sejam as pessoas. Talvez seja aquilo que acontece quando histórias distintas se encontram em torno de uma mesma fé.
Neste 30 de agosto de 2026, na Chapada Diamantina, o domingo começou assim.
No Sítio Rio Grande, em Palmeiras, próximo ao Vale do Capão, os primeiros homens começaram a chegar. Vinham de diferentes lugares, de diferentes igrejas, trazendo suas histórias, suas experiências e, certamente, algumas boas conversas para colocar em dia.
Pouco a pouco, o silêncio habitual do lugar foi sendo substituído por vozes.
Um abraço aqui. Um aperto de mão ali. Um “quanto tempo!”. Uma apresentação. Uma risada.
E, quando se percebeu, o sítio já não era apenas um pedaço bonito da Chapada. Era o lugar escolhido para reunir cerca de 105 homens presbiterianos em torno de uma frase simples, mas grande o suficiente para ocupar todo aquele domingo:
“Anunciando o Evangelho.”
Era o 2º Encontro de Homens Presbiterianos do Sínodo Chapada Diamantina.
Quem conhece a Chapada sabe que a paisagem por si só já diz alguma coisa. Montanhas, vales, caminhos, silêncio e aquela sensação de que a natureza tem seu próprio jeito de nos fazer diminuir o passo.
Talvez por isso o cenário combinasse tanto com a proposta do encontro.
Porque, em meio à correria dos compromissos, das agendas e das responsabilidades, aqueles homens tinham ido até ali para fazer uma coisa que nem sempre cabe na pressa da vida: parar.
Parar para conversar.
Parar para ouvir.
Parar para refletir.
Parar para lembrar por que começaram.
O espaço foi cedido gratuitamente pela irmã Andrea e seu esposo, Sandro, que novamente abriram as portas do Sítio Rio Grande para receber os participantes. E há algo bonito quando uma casa, um sítio ou qualquer outro lugar deixa de ser apenas propriedade para se tornar espaço de acolhimento.
Naquele domingo, o Rio Grande era de todos.
A programação foi conduzida pelo presbítero Sandro Alcântara, presidente da Sinodal de Homens Chapada Diamantina.
Mas quem conduziu mesmo aquele encontro, em certo sentido, foi a Palavra.
O pastor Josué, de Palmeiras, trouxe uma reflexão baseada no Salmo 96.
E o antigo salmo encontrou novos ouvidos.
“Anunciai entre as nações a sua glória.”
Não era apenas uma frase escrita há séculos.
Era um chamado dirigido a homens que vivem em cidades, famílias, igrejas e comunidades do nosso tempo. Homens que trabalham, enfrentam dificuldades, cuidam de suas casas, exercem funções na igreja e, em meio a tudo isso, são chamados a testemunhar aquilo em que creem.
O tema do encontro ganhou, então, rosto.
Anunciar o Evangelho não é apenas falar.
É viver de modo que a mensagem anunciada encontre correspondência na vida de quem a proclama.
E então veio uma pergunta.
Talvez tenha sido a pergunta que mais demorou a ir embora.
O presidente da CNHP, nosso célebre Lula (presbítero Luiz Augusto Gonzaga) trouxe a palestra: “Qual o legado que você quer levar do seu ministério?”
Uma pergunta incômoda.
Porque é fácil pensar no que estamos fazendo hoje.
Mais difícil é pensar no que ficará amanhã.
Os cargos passam.
As diretorias mudam.
As reuniões terminam.
As fotografias envelhecem.
Os eventos entram para a memória.
E, em muitos casos, viram apenas um registro antigo, quando nem isso,
Mas algumas coisas permanecem.
Um conselho dado na hora certa.
Uma vida dedicada à igreja.
Um filho que aprendeu pelo exemplo.
Um irmão que foi encorajado.
Uma igreja que foi servida.
Uma pessoa que conheceu o Evangelho porque alguém decidiu anunciá-lo.
Talvez legado seja exatamente isso: aquilo que continua falando quando já não estamos presentes para explicar.
Neste domingo, a liderança do Sínodo Chapada Diamantina também esteve representada.
Vieram pastores de diferentes igrejas: Márcio Gleison, presidente, de Utinga; Antônio de Brito, secretário sinodal, do Brejo; Mário Barbosa, de Nova Redenção; Adauto Cezar, de Ruy Barbosa; Silas, de Barra da Estiva; e Tom, de Cabrália.
Também estavam Jessé Rodrigues, presidente da Sinodal Central da Bahia, com sede em Salvador, e Joedson Bastos, o Son, presidente interino Sinodal Noroeste da Bahia, de Cafarnaum.
Mas encontros como aquele não são feitos apenas de lideranças.
São feitos de gente.
Da pouco mais de uma centena de homens que chegaram.
Dos que vieram de longe.
Dos que talvez quase desistiram de ir.
Dos que reencontraram velhos amigos.
Dos que fizeram novas amizades.
Dos que chegaram sem conhecer muita gente e saíram sabendo o nome de vários.
Dos que ouviram uma palavra que precisavam ouvir.
Dos que simplesmente desfrutaram algumas horas de comunhão.
Porque, às vezes, Deus usa uma grande pregação.
Outras vezes, usa uma conversa durante o almoço.
Um abraço.
Um sorriso.
Uma palavra de encorajamento.
Uma história compartilhada.
E quando o domingo começou a terminar, a Chapada continuava lá.
As montanhas não haviam mudado.
O caminho de volta continuava esperando.
As igrejas continuariam com suas agendas.
A segunda-feira chegaria, como sempre chega.
Mas os homens que estiveram no Sítio Rio Grande não voltariam exatamente como chegaram.
Talvez levassem na bagagem algumas fotografias.
Talvez novas amizades.
Talvez uma frase anotada.
Talvez uma decisão.
Talvez apenas a lembrança de um domingo diferente.
Mas havia duas coisas que não deveriam ficar para trás.
O chamado para anunciar o Evangelho.
E a pergunta sobre o legado que cada um está construindo.
No fim, talvez seja essa a beleza de um encontro de homens presbiterianos.
Eles se reúnem por algumas horas.
Mas podem sair dali pensando no que farão com os próximos anos de suas vidas.
Porque um encontro termina.
O último domingo de agosto termina.
Até mesmo um ministério, um dia, termina.
Mas o legado permanecerá, por anos e décadas à fio!